Suspeitos de formar grupo de extermínio são transferidos para Campo Grande
- Do Correio Braziliense - Dezessete dos 19 policiais militares presos acusados de integrarem um grupo de extermínio em Goiás foram transferidos para o Mato Grosso do Sul, na tarde de quarta-feira (16/2). A Polícia Federal, que investiga o caso, tentou transferí-los para um presídio em Catanduvas, no Paraná, mas não havia vagas.Foto: Cadu Gomes - CB/DA Press
O voo saiu de Goiânia por volta das 15h, e segundo informações da Polícia Federal, deve chegar ao Presídio Federal de Campo Grande ainda nesta quarta-feira. Dois policiais, cujos nomes não foram divulgados, ficaram em Goiânia porque o tempo de detenção previsto para eles é menor.
Advogados devem pedir habeas corpusA Associação dos Cabos e Soldados da PM do Estado de Goiás protestou contra a transferência, na manhã desta quarta (16). Eles disseram que os acusados têm residência fixa, são servidores públicos e não atrapalharam as investigações, mas a Polícia Federal não acatou o pedidoAinda esta semana, os avogados devem entrar com o pedido de habeas corpus, alegando não haver prova contra qualquer um dos suspeitos.
Segurança máximaA Polícia Federal cumpriu no início da manhã de ontem (16/2) os 19 mandados de prisão preventiva expedidos pela Justiça. Os federais detiveram 13 militares em Goiânia e os outros seis em Formosa, Flores e Acreúna. Os PMs devem ser transferidos hoje para o presídio federal de segurança máxima localizado em Campo Grande (MS). O secretário de Segurança Pública de Goiás, João Furtado Neto, exonerou o subcomandante da PM logo após a divulgação da prisão dele.
Foto: Cadu Gomes - CB/DA Press
Entre as vítimas da quadrilha formada por policiais militares de diversas patentes e alvo da operação realizada ontem estariam crianças, adolescentes e mulheres sem qualquer envolvimento com a prática de crimes. O grupo de extermínio é investigado por federais baseados em Goiás há cerca de um ano. Segundo as investigações, a organização criminosa tinha como principal atividade a prática habitual de homicídios.
Em nota, a PF afirmou que “nos últimos 10 anos, os integrantes da organização criminosa começaram a fortalecer a sua atuação nos municípios de Formosa, Rio Verde, Acreúna, Alvorada do Norte, bem como Goiânia. Assim, onde se instalavam, o número de vítimas de homicídios em supostos confrontos com aquela corporação aumentava consideravelmente.” Os presos responderão por homicídio qualificado em atividades de grupo de extermínio, formação de quadrilha, tortura qualificada, tráfico de influência, falso testemunho, ocultação de cadáver, prevaricação, porte de arma de fogo de calibre restrito às Forças Armadas e ameaças a testemunhas.
Os presos
Coronel Carlos Cézar MacárioTenente-coronel Ricardo Rocha BatistaMajor Alexandre Rocha AlmeidaCapitão André Ribeiro NunesTenente Victor Jorge FernandesSubtenente Fritz Agapito Figueiredo Subtenente Gerson Marques FerreiraSargento Wanderlei Ferreira dos SantosCabo Cláudio Henrique CamargoCabo Éderson TrindadeCabo Alex Sandro Souza SantosCabo Ricardo Rodrigues MachadoSoldado Gilson Cardoso SantosSoldado Lourival Torres InêsSoldado Francisco Emerson Leitão OliveiraOutros três militares tiveram os nomes mantidos em sigilo.
Denuncie
A Polícia Federal e a Secretaria de Segurança Pública de Goiás iniciarão as buscas às pessoas desaparecidas após abordagens policiais. Criaram, assim, um canal de denúncia com o endereço denuncia.srgo@dpf.gov.br, por meio do qual a população poderá encaminhar informações para auxiliar a atividade policial de busca, bem como outros dados sobre crimes não esclarecidos. As identidades dos denunciantes serão preservadas.
Quem é quem
Os principais acusados de envolvimento com o grupo de extermínio que age no Entorno do DF e em outras regiões de Goiás.
Ernesto Roller
Secretário de Segurança Pública de Goiás durante o governo Alcides Rodrigues (2007-2010) e atual procurador-geral de Goiânia. Também foi candidato a vice-governador de Goiás na última eleição pela chapa de Wanderlan (PP), mesmo partido de Rodrigues. Teria protegido os PMs investigados, promovendo-os após serem denunciados à Justiça por suposto envolvimento nas mortes de inocentes. Deputado estadual até o ano passado — como concorreu a vice-governador não pôde disputar a reeleição para a Assembleia Legislativa goiana —, Roller tinha como base eleitoral Formosa, sua terra natal, onde está baseado o 16º Batalhão da PMGO, responsável pela maioria das execuções, segundo as investigações
da corporação.
Ricardo Rocha
Ele carrega a fama de ser o maior matador da Polícia Militar de Goiás, título dado pelo Ministério Público de Goiás e pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa goiana. O oficial e alguns homens sob seu comando teriam tirado a vida de cerca de 100 pessoas. Rocha não nega a maioria das mortes, mas diz ter tirado a vida “apenas” de criminosos e em serviço. Ele responde a cinco inquéritos criminais, foi indiciado pela Corregedoria da PMGO e acabou afastado do comando do 16º Batalhão de Formosa em setembro de 2010, quando, até então, tinha o apoio incondicional de Ernesto Roller.
Jorcelino Braga
Foi secretário da Fazenda de Goiás na gestão de Alcides Rodrigues, colega de partido. Assim como Roller, é investigado pela Polícia Federal por “prática de tráfico de influência que resultaram nas promoções de patentes de integrantes da organização criminosa (o grupo de extermínio)”. Quando era secretário, se viu envolvido em um escândalo de corrupção protagonizado por sua filha. Aniela Braga estaria cobrando 10% de comissão sobre os recursos liberados pelo governo do Estado para uma entidade beneficente. Até então, Jorcelino, que assumiu a secretaria em 2007 e se tornou o “homem forte” do governo Alcides, tinha o nome cotado para candidato ao governo do Estado.
Wayne do Carmo FariaWayne Faria (PSC), tradicional criador de gado Gir na Fazenda Saranã, localizada em Alvorada do Norte, foi eleito prefeito de Padre Bernardo - GO, cidade a 111 km de Brasília, onde cumpre seu segundo mandato. Ele já foi prefeito de Padre Bernardo de 1993 e 1997. Wayne Carmo Faria é empresário do ramo de hotelaria na capital federal.O Termo de Encerramento do IPM nº 025/10 relata denúncia recebida pela corregedoria da PMGO, na qual o prefeito de Padre Bernardo, Wayne do Carmo Faria (PSC), “contratou o major Ricardo Rocha para matar larápios que haviam praticado furto na Fazenda Saranã, de propriedade do prefeito, sendo o crime encomendado por R$ 35 mil.”