Japão: cem vezes o horror de Hiroshima - Por Roberta Jansen e Tatiana Farah, do O Globo - Informações desencontradas e pouco coerentes sobre as reais dimensões do acidente na central nuclear de Fukushima dificultam as análises sobre o desenrolar da situação. Enquanto as explicações das fontes oficiais indicam que tudo caminha para a normalidade, os fatos teimam em desmenti-las, dia após dia, revelando um quadro cada vez mais grave.
Especialistas respondem às maiores dúvidas envolvendo o acidente, com base nos últimos desdobramentos. No pior cenário, um vazamento equivalente a cem bombas de Hiroshima.
Qual o cenário mais provável?"Que alguma radiatividade continue a escapar, mas que eles controlem a situação nos próximos dias. No fundo, sempre haverá os efeitos, mas será melhor se o vento soprar para o mar. Os japoneses são muito competentes e devem controlar a situação: já fizeram o mais importante, que foi evacuar as pessoas no raio de 20 quilômetros, o que não ocorreu em Chernobyl", avalia o físico Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe/UFRJ.
"Não sabemos ao certo todos os procedimentos que estão sendo adotados. Um vazamento geral não deve ocorrer e a emissão de gases com produtos de fissão tem ocorrido", afirma o presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), Edson Kuramoto.
E qual seria o pior cenário?"Um grande derretimento parcial ou total dos núcleos dos reatores. Com isso, seria lançado à atmosfera o equivalente radiativo de cem bombas de Hiroshima. Não falo de explosão, porque o reator não explode como uma bomba atômica, mas a quantidade de material radiativo seria centenas de vezes maior", afirma Pinguelli Rosa.
Ásia e América do Norte temem efeitos nuvem radioativa
O medo de que uma nuvem radioativa procedente dos reatores japoneses se espalhe pela Ásia e América do Norte está levando as populações de países como Canadá e Estados Unidos a tentarem se proteger. Isso mesmo depois de a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter descartado algum perigo imediato.
Autoridades americanas colocaram à disposição mais monitores de radiação no oeste do país e nos territórios do Pacífico. A medida é parte do sistema RadNet, que mede os níveis de contaminação no ar, na água potável, no leite e na chuva.
No Pacífico canadense, a população está estocando remédios que poderiam evitar efeitos de radiação, principalmente iodeto de potássio, que satura a tireoide e evita a absorção de iodo radioativo pela glândula. A procura pelo medicamento aumentou também em farmácias dos estados de Washington e Oregon. O endocrinologista Mario Vaisman, professor titular da UFRJ, alerta que a automedicação é um erro.
- No Japão, a distribuição do iodeto de potássio é feita de forma controlada, como médicos avaliando em exames quanto cada pessoa precisa. Isso porque o excesso de iodo também é prejudicial, podendo causar doença autoimune na própria glândula - diz.