- Por Claudio Carneiro/Opinião e Notícia - Não precisa ser especialista em política ou matemática para 'pescar' que Crivella é um bispo correndo enviesado no tabuleiro de xadrez do governo
Ideologia! E eu quero uma pra viver! Quem sabe o inspirado Cazuza nos faz entender o que leva o Partido dos Trabalhadores a transformar um pupilo do bispo Macedo no novo ministro da Pesca e Aquicultura? Não precisa ser especialista em política ou matemática para “pescar” que Crivella é um bispo correndo enviesado no tabuleiro de xadrez do governo – atraindo milhões de evangélicos numa grande tarrafa – em torno dos candidatos do PT nas eleições municipais de outubro mas, especialmente, na capital paulista, onde um ex-ministro da Educação – que nunca fez a lição de casa — concorre à prefeitura da maior cidade do país.
Marcelo Crivella é, literalmente, um peixe fora d’água. Em seu site, ele reconheceu em recente postagem: “É uma área em que, confesso, vou ter que aprender muito”. E vai mesmo. Dizem que “pegava jacarés” — quando garoto na praia do Leblon — e deve ter comido lagostas em algum jantar na cinematográfica residência do grande líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) nos Estados Unidos. Foi o mais perto que o sobrinho de Macedo chegou do mar em seus 54 anos de vida.
Mais tranquilo que peixe de aquário, o líder religioso e cantor gospel chega à Esplanada dos Ministérios de caniço e samburá. O senador pelo Partido Republicano Brasileiro é grande e histórico aliado de Lula, sintoma de que Dilma Rousseff pode até lançar o anzol e a isca, mas o molinete pertence ao ex-presidente.
Eleito em 2003 e reeleito para mandato até 2019, Crivella nada, nada, mas nunca morre na praia. A grande aliança política em torno deste astro pop da música – com 14 CDs lançados e 5 milhões de cópias vendidas – faz dele o grande intérprete dos anseios do projeto de poder de um partido que pretende se manter no topo da parada de sucessos na base do custe o que custar. De fato, o mar não está pra peixe.
Criada em 2003 como uma secretaria especial, a pasta – antes apenas um bote salva-vidas – foi descoberta pelo governo como um iate de luxo, posto que nunca será um transatlântico. Por ali navegaram José Freitsch, Altemir Gregolin e Ideli Salvatti – substituída por Luís Sérgio – este último não conseguiu decifrar uma linha da carta náutica e política que faz dele uma pequena garrafa esquecida no mar do planalto central. E acabou naufragando. Segundo as leis trabalhistas, ninguém pode ser demitido durante as férias.
É claro que isso não de aplica a Luíz Sérgio, que não era ministro mas um simples bagre – visto que usa bigode – num mar de peixes grandes. Vamos combinar. Alguém deveria jogar um puçá no lago Paranoá e trazer à superfície o que cada um deles fez à frente do timão. O conteúdo seria lançado de volta logo em seguida. Pode apostar.
Ministro conhece as marésCom um patrimônio declarado de R$ 78 mil em 2008, Crivella é tão polêmico quanto articulado. Orador habilidoso, o bispo e ministro consegue ser contra a violência homofóbica ao mesmo tempo em que se opõe à criminalização da homofobia. Em compensação apoia a legalização do aborto enquanto refuta a teoria da evolução das espécies preconizada por Darwin.
Acusado de atuar como laranja da Igreja Universal, de enviar dinheiro para paraísos fiscais por meio – e em nome – de empresas da IURD e investigado por crimes contra o sistema financeiro, envolvimento com a máfia dos bingos, venda de sentenças e nepotismo cruzado, Crivella soube esperar a virada da maré. O Supremo Tribunal Federal o livrou das profundezas e ele voltou à tona.
Convidado por Dilma Rousseff no último fim de semana, Crivella se disse surpreso e declarou à imprensa: “Esta é uma homenagem que a presidente da República quer fazer ao povo fluminense”. Homenagem por homenagem, voltemos a Cazuza:
“Meus heróis morreram de overdose. Meus inimigos estão no poder”…