- Da Folha.com - A Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo investiga a evolução patrimonial do agente Ismar José da Cruz, especialista em se infiltrar em quadrilhas de tráfico internacional de drogas e tido como um expert do departamento de narcóticos do Estado.
A vida confortável que o policial levava num apartamento de 280 m², em Perdizes, na zona oeste paulista, chamou a atenção dos corregedores.
O imóvel, comprado há cerca de três anos e registrado em nome de um parente do policial, é avaliado em cerca de R$ 2 milhões. Só de condomínio, o gasto mensal no edifício é de R$ 2.500. O salário de Cruz é de R$ 3.500.
A investigação em curso ainda não encontrou justificativas, como o recebimento de herança, por exemplo, para seu padrão de vida. Hoje, o apartamento está à venda.
A Corregedoria investiga também se o policial é proprietário de um sítio de 6.000 m², cujo valor de mercado pode chegar a R$ 1 milhão, em Mairinque, município a 71 km de São Paulo.
O sítio está em nome de Ronaldo Tovani, ex-juiz e advogado.
Em um contrato de gaveta, Cruz aparece como o verdadeiro dono do sítio.
Tovani afirma ser proprietário apenas do terreno e não das edificações do sítio.
Outro indício de patrimônio incompatível é o fato de, num assalto à casa do policial em 2004, os ladrões terem levado R$ 300 mil.
O policial também é investigado num caso de 2009 em que ajudou a apreender 269,5 kg de cocaína, mas só 4% era droga de fato.
Há suspeita de que o restante foi desviado antes da perícia.
Resposta
Cruz não quis falar sobre a investigação da Corregedoria.
A reportagem tentou ouvi-lo duas vezes. Na segunda, ele disse que estava doente.
Sede do DENARC em São Paulo.
CURRÍCULO
O currículo de Ismar José da Cruz apresenta seu envolvimento em casos que misturam drogas e dinheiro.
Em 2009 três colombianos e dois brasileiros acusados de traficar
269,5 quilos de cocaína,
a maior apreensão feita pela polícia paulista, foram colocados em liberdade. Para o relaxamento da prisão na Justiça, pesou o resultado do laudo feito neste ano pelo Instituto de Criminalística (IC), que constatou que
os sacos de pó branco que haviam sido guardados nos cofres do Departamento de Narcóticos (Denarc) tinham só 3,7% de cocaína.
A prisão dos cinco havia ocorrido no dia 27 de novembro de 2009 e foi anunciada com alarde pela Polícia Civil. No inquérito, policiais disseram que a operação demandou três meses de serviços da inteligência do Denarc. O delegado Maurício Del Trono Grosche, titular da 1.ª Delegacia de Apoio ao Interior do Denarc, responsável pelo flagrante e pela investigação, explicou que os traficantes traziam a droga da Colômbia em pequenas quantidades.
A operação de inteligência foi chefiada pelo investigador Ismar José da Cruz, que se passou por comprador da mercadoria.
Um ano antes, Cruz havia sido preso com outros quatro policiais civis sob suspeita de desviar drogas em outra ocorrência – de 2003. Na época,
Cruz e os outros policiais foram acusados de substituir parte dos 327 quilos de cocaína apreendidos por outras substâncias. Ele e os demais acusados acabaram inocentados no processo por falta de provas.
Na apreensão de 2009, o exame feito pelo IC, além de mostrar a impureza do material guardado pelos policiais, apontou que os tijolos de cocaína, mostrados nas fotografias da apreensão, haviam se transformado. “A droga veio para cá em forma de pó, não sob a forma de tijolos (prensada)”, escreveram os peritos.
A informação de que a droga era, na realidade, um volume gigantesco de talco e mármore surpreendeu envolvidos no processo. São raros os casos em que a Justiça pede teste de pureza da droga. Normalmente, o material apreendido é incinerado ainda no início do processo.
Pelo resultado, no entanto, é difícil constatar se houve desvio do material apreendido, pois o grau de pureza da droga não foi verificado no momento da apreensão.
O advogado de dois dos colombianos, Luiz Carlos Puleio, autor do pedido do exame de pureza, defende a decisão da Justiça. “Além de autoria, todo crime precisa de materialidade. E parece que, neste caso, em vez de cocaína, eles traficavam talco. Meus clientes são acusados de quê?”
Com o relaxamento da prisão e a decretação da liberdade provisória, os cinco acusados de tráfico tiveram os passaportes apreendidos e terão de comparecer de dois em dois meses ao Fórum de Itu se quiserem permanecer livres. Eles ficaram presos por um ano e nove meses.
Em 2008 a Justiça de São Paulo decretou a prisão preventiva de cinco policiais civis por tráfico de drogas, fraude processual e peculato, que é o desvio praticado por funcionário público. Segundo a acusação, os policiais do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) desviaram 327 mil quilos de cocaína de uma apreensão, cinco anos atrás. Os dois delegados envolvidos no caso, Luiz Henrique Mendes de Moraes e Robert Leon Carrel, já estão presos, acusados do sumiço de um outro carregamento de cocaína. Os três investigadores eram
Ismar José da Cruz, João Carlos da Silva e Valdir Jacinto dos Santos.